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Sri Lanka: pegadas portuguesas na areia

In Lusofonia e Diversidade, O Mundo de Língua Portuguesa on 24 de Agosto de 2012 by ronsoar Tagged: , ,

Ishara Jayawardane
Do jornal Ceylon Daily News – Colombo, Sri Lanka
17 de agosto de 2012


Os povos estão interessados em suas origens. Tão remoto no passado quanto podem lembrar, os povos têm uma história registada.

Eles documentaram uma História que remonta há milhares de anos. Quem somos nós? Para onde vamos? De onde nós viemos? Qual é a nossa herança? Quem foram os nossos ancestrais? A drª. Shihan de Silva Jayasuriya é uma dessas pessoas especializadas na história cultural portuguesa. Ela também tem investigado a fundo essa rica cultura e veio com informações preciosas relativas a esta cultura de vários séculos. A drª. Shihan de Silva Jayasuriya esteve no Sri Lanka por um tempo curto e compartilhou os seus conhecimentos sobre a Língua Portuguesa local, em uma entrevista ao Ceylon Daily News.

A pesquisadora cingalesa Shihan de Silva Jayasuriya é do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Londres.

“Eu tenho pesquisado essa Língua por cerca de 25 anos. E é muito fascinante e surpreendente que a Língua ainda seja falada no Sri Lanka, porque a previsão era de ter sido extinta cem anos atrás. Ela ainda é muito viva e falada por algumas famílias no Sri Lanka”, disse a drª. Shihan de Silva Jayasuriya.

A drª. Shihan de Silva Jayasuriya obteve formação como economista e, em seguida, fez um mestrado em Finanças na Universidade de Londres. Quando ela estava a fazer seu curso de graduação, deparou-se com um manuscrito da costa leste do Sri Lanka, recolhido por um funcionário público britânico de nome Hugh Nevill. Ela, por acaso, teve acesso a esse manuscrito por causa de seu interesse quanto às palavras de origem portuguesa na língua cingalesa, que é a sua língua materna. “Eu procurei por um livro que tivesse palavras portuguesas no cingalês. Fui para a Biblioteca Britânica de Londres e conheci o curador, K. D. Somadasa, que antes tinha sido bibliotecário na Universidade de Peradeniya [cidade próxima a Kandy, região central do Sri Lanka], e pedi-lhe por esse livro. Ele disse: ‘Volte na próxima semana que eu vou procurar o livro’.”

–– A cultura do Sri Lanka ––
“Então eu voltei e ele disse que não havia tal livro, mas que havia um manuscrito de mais de 100 anos em uma coleção de manuscritos orientais na Biblioteca Britânica. Havia milhares de manuscritos da Coleção de Hugh Nevill, mas apenas um manuscrito português que ninguém tinha reparado. Ele disse: ‘Se você souber o português, você podia traduzir este manuscrito voluntariamente’. Eu me comprometi a traduzir esse manuscrito. Isso provou-me ser mais difícil do que eu pensava, porque estava no crioulo com base no português. Línguas crioulas são passíveis de mudança. Não há um gramático para formalizá-las e padronizá-las.”

Uma vez que ela não conseguia traduzir os versos, ela foi capaz de perceber a interação entre portugueses e cingaleses e, por causa de sua compreensão da cultura do Sri Lanka, foi possível para ela a tradução. “E então, descobri que as pessoas da costa leste [do Sri Lanka] estavam de facto a cantar algumas dessas canções. Eu não sabia o que era, já que eu estava a traduzir. E foi assim que eu me interessei em línguas crioulas. Depois do meu mestrado em Finanças, segui um curso de linguística crioula. Em seguida, fiz cursos de linguística geral e de fonética e comecei a escrever sobre esta língua para revistas acadêmicas.

“Fui a conferências e apresentei trabalhos académicos sobre o indo-português do Ceilão e que me levaram a fazer um doutoramento sobre o indo-português do Ceilão, sobre sua história, literatura e linguística. O português falado no Sri Lanka é diferente do português padrão, do português europeu.

“Ele tem relação com outros dialetos indo-portugueses que floresceram outrora no litoral da Índia. O indo-português também tem relação com o crioulo português de Malaca [na Malásia] e também com o crioulo português de Macau [na China], e há uma semelhança linguística subjacente entre os crioulos portugueses da Ásia que teria sido muito útil no comércio. No Sri Lanka, por cerca de 350 anos, a língua de comércio internacional era o indo-português.”

Mapa português da ilha de Ceilão (Sri Lanka) do século XVII: o Ceilão, ou o Sri Lanka, era também a ilha da “Taprobana”, como era conhecida pelos romanos e como foi citada em Os Lusíadas.
 

–– Comércio de especiarias ––
Os portugueses vieram para encontrar a origem das especiarias. Eles queriam chegar à Índia e, quando desembarcaram na Índia, disseram que buscavam por cristãos e especiarias.

Eles queriam converter as pessoas ao catolicismo e ficar ricos transformando Lisboa no centro para o mercado de especiarias na Europa. Portugal era, naquela época, um país pobre.

O Império Português foi dividido em três fases. O primeiro império era a Índia, um termo estendido que incluiu o Sri Lanka. Praticamente não havia mulheres no contingente que chegou à Índia, com exceção das 30 mulheres que eram as chamadas “órfãs d’el-Rei”.

Elas foram enviadas para a Índia e os homens portugueses eram encorajados a casar-se com estas órfãs. Por conseguinte, a maioria dos portugueses teve casamentos inter-raciais e quando eles começaram a casar entre etnias, nasceram crianças de etnia mista, crianças com pais portugueses e com mães do Sri Lanka que eram cingalesas ou tâmeis. Estas crianças assimilaram esta linguagem de contato – o indo-português do Ceilão, que também é chamado de crioulo português do Sri Lanka.

Quando os linguistas falam em línguas de contacto, referem-se aos pidgins e aos crioulos. Os pidgins não são a primeira língua, nem a língua materna de ninguém.

A língua materna é a sua primeira língua. Quando um pidgin torna-se nativo, quando se torna a primeira língua, ele é chamado de crioulo. As crianças de origens étnicas mistas começaram a falar o crioulo português como sua primeira língua em casa. Houve gerações destas crianças, de comunidades de crianças de etnia mista que podiam falar o indo-português.

Colombo, capital do Sri Lanka, foi fundada em 1517 a partir de um forte construído pelos portugueses para proteger o comércio de especiarias.

–– Mulheres holandesas ––
“Os holandeses expulsaram os portugueses após uma guerra que durou 20 anos em Sri Lanka. Os portugueses eram autorizados a sair. Mas os mestiços e mestiças, as pessoas de sangue misto, eram deixados para trás.

“Essas mestiças também se tornaram esposas dos holandeses. Os holandeses tentaram trazer mulheres holandesas, mas elas eram estéreis e ficaram desajustadas na sociedade cingalesa.

“Então os holandeses casaram-se com as mestiças. Desta forma, o português do Sri Lanka tornou-se a língua materna de crianças holandesas com pais holandeses e mães mestiças.

“As mães falavam com seus filhos em indo-português e também tinham babás que eram africanas, que também falavam em indo-português.

“Embora o holandês fosse a língua oficial na esfera jurídica e na administração, o português era falado até mesmo nas casas das famílias holandesas.”

Shihan de Silva acrescentou ainda que nos momentos mais reservados, como quando os homens holandeses estavam perto de morrer, ouviam-se conversas que tinham com suas filhas em crioulo português; mesmo se soubessem o holandês, eles mudavam para o indo-português, a língua da intimidade.

(Tradução de Ronaldo Santos Soares.)

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JAYAWARDANE, Ishara. Portuguese footprints in the sand.
Do jornal Ceylon Daily News – seção Features.
Colombo, Sri Lanka.
Publicado em: 17 ago. 2012.

Uma resposta to “Sri Lanka: pegadas portuguesas na areia”

  1. Seria bom que alguém que saiba da existência de alguma publicação em indo-português ou até mesmo se alguém que domina este crioulo tivesse blogues e disponibilizasse na internet para assim facilitar aos que querem ter conhecimento do indo-português. Obrigado.

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