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Moçambique: Perpétua Gonçalves, a transformadora de mentes

In Defesa da Língua Portuguesa, Lusofonia e Diversidade on 22 de Agosto de 2012 by ronsoar Tagged: , ,

de Hermínio José
Do jornal @Verdade – Maputo
16 de agosto de 2012

Perpétua Gonçalves, a mais eminente pesquisadora da Língua Portuguesa em Moçambique.

Volvidos pouco mais de 30 anos de docência, tempo durante o qual dedicou a sua vida à transmissão de conhecimentos científicos e não só, Perpétua Gonçalves vai à reforma. Mas promete não parar de moldar mentes através do ensino.

Perpétua Gonçalves, de 65 anos de idade, nasceu em 1947 na então Vila de Manica, província do mesmo nome, no centro de Moçambique. Obteve o grau de doutoramento em Lisboa, Portugal, na área de Linguística Portuguesa e detém o título de Cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira.

Coordena há mais de 30 anos projetos de investigação sobre a aquisição e Ensino do Português como língua não materna em Moçambique.

A sua carreira como docente começou em 1972, em Bruxelas, e nessa altura não cogitava a hipótese de regressar à sua terra natal, uma vez que o país estava mergulhado numa instabilidade política. Dois anos depois – isto é, em abril de 1974 –, ela retorna a Moçambique e leciona, primeiro no ensino secundário e depois no superior.

Foi neste último que, durante 32 anos, deu tudo de si em prol da transmissão de conhecimentos aos seus estudantes. Tal como ela diz, “sempre gostei de transformar as mentes das pessoas e investi muito no processo de ensino e aprendizagem”.

–– O país aposta mais na quantidade que na qualidade ––
Em relação à qualidade de ensino em Moçambique, a nossa entrevistada considera que deixa muito a desejar. O surgimento de inúmeros estabelecimentos de ensino em quase todos os subsistemas é desproporcional à qualidade, mas “este é um problema que pode ter derivado do passado histórico de Moçambique, nomeadamente a colonização e as guerras que se registaram nas últimas décadas”.

Perpétua Gonçalves afirma ainda que o Governo moçambicano esforçou-se na expansão da rede escolar, empregando professores sem formação, o que concorreu para uma qualidade de ensino aquém do desejado.

“Na educação, um mau professor não mata ninguém como um médico mal formado mataria um doente. Mas que um mau professor mata o país a médio e longo prazos, disso não há dúvidas”, assegura. “As pessoas preocupam-se mais em abrir estabelecimentos de ensino descurando a formação do capital humano, o qual é indispensável para o desenvolvimento do país”, diz.

No entanto, a nossa interlocutora refere que o Governo tem estado a trabalhar no sentido de reverter o cenário, apontando o encerramento de algumas instituições de ensino superior como uma das medidas para alcançar esse desiderato e a realização de auditorias para aferir a qualidade de ensino nas escolas, nos institutos e nas universidades.

–– Cinquenta anos de uma herança pesada ––
Paralelamente à celebração este ano do 50º. aniversário do ensino superior em Moçambique, Perpétua Gonçalves diz que nem tudo foi ou é um mar de rosas, pois ainda há muito por se fazer para restaurar a dignidade e o valor que devem caracterizar o ensino superior.

“Foram abertas muitas universidades e outras instituições de ensino superior, mas este ritmo não foi acompanhado pela qualidade. Mais vale termos poucas escolas e universidades, mas com uma qualidade de ensino desejável e que nos permitam fazer face aos desafios que o mundo de hoje nos impõe”, defende.

Para ela, os 50 anos do ensino superior em Moçambique não devem ser unicamente vistos como um motivo de júbilo. Há que se repensar no fardo pesado que foi herdado do passado e que se vai repercutir a médio ou longo prazo no país.

Formatura de graduados da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, em 2011: Moçambique celebra o 50º. aniversário do ensino superior no país.
 

–– O português de Moçambique ––
“Pepé”, como também é carinhosamente tratada pelos seus estudantes, amigos e colegas, é uma professora investigadora da Língua Portuguesa – sobretudo, do português de Moçambique. Trata-se de uma variante do português típica e específica do nosso país.

Da mesma maneira que os cabo-verdianos, angolanos e são-tomenses têm um português típico e carregado de marcas linguísticas próprias, também Moçambique tem o seu, o que faz a nossa entrevistada usar o lema ‘A minha pátria, o português de Moçambique’ nas suas investigações, em alusão à especificidade da Língua Portuguesa em Moçambique.

“Quando falamos do português deste ou daquele país, referimo-nos às variedades que a Língua Portuguesa tem, e também serve de uma diferenciação do português europeu do dos outros países ou continentes”, explica. Questionada sobre se estas variantes linguísticas do português seriam boas, Perpétua respondeu nos seguintes termos:

“No mundo não existem línguas melhores ou piores que as outras. O que acontece é que elas são diferentes umas das outras. Nós, como investigadores e linguistas, temos é que procurar perceber em que aspecto é que uma variante linguística é diferente da outra. Devemos identificar as propriedades do português europeu e do moçambicano assim como dos outros países falantes da Língua Portuguesa.”

–– “A reforma não vai mudar nada” ––
Formalizada a reforma, há quem possa pensar que Perpétua Gonçalves vai abdicar das áreas de docência e investigação, mas a verdade é que ela garante que não vai mudar nada. “Eu tenho muitos projetos de pesquisa, vou continuar a fazer a supervisão de teses de mestrado e doutoramento. Desengane-se quem pensar que a minha reforma é sinónimo de repouso.”

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JOSÉ, Hermínio. A transformadora de mentes.
Extraído do jornal @Verdade (Maputo, Moçambique).
Publicado em: 16 ago. 2012.

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