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O “internetês” pode prejudicar o domínio da gramática

In Defesa da Língua Portuguesa, Lusofonia e Diversidade on 11 de Agosto de 2012 by ronsoar Tagged: , , ,

:::  Pesquisa nos EUA mostrou queda das notas dos mais jovens que usam mensagens de SMS.  :::
:::  Quem enviou mais mensagens obteve piores notas em testes de gramática.  :::

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Ronaldo Santos Soares
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo

Tornou-se comum ver entre os mais jovens o ato de enviar mensagens de SMS por meios eletrónicos.
 

As mensagens de texto enviadas por telemóveis (ou telefones celulares) e mensageiros instantâneos de Internet são de uso intenso de pré-adolescentes, que recorrem a termos próprios e abreviados. Em um tempo de comunicação instantânea, os jovens querem a mais breve expressão escrita possível para transmitir suas mensagens informais no meio eletrónico à sua roda de amigos e de parentes.

Porém, especialistas afirmam que esse jargão das mensagens de SMS – ou mensagens-torpedo, como também são chamadas – estão prejudicando os jovens em testes escolares de gramática e de redação. Os jovens perigosamente tendem a abandonar as regras gramaticais existentes, e com isso arriscam-se a obter notas baixas em testes.

Abreviações de “você” por “vc”, frases curtas para economizar tempo e omissão de letras são usados por jovens que se expressam em português em seu jargão da Internet.

De acordo com uma pesquisa feita nos Estados Unidos da América, os pré-adolescentes que usam mais essa linguagem cifrada do “internetês” obtêm as piores notas das provas de gramática.

“Na média, há dados de uma queda nas notas em testes de gramática conforme o grau de mensagens de texto enviadas com abreviações e modificações”, disse o pesquisador Drew Cingel. “Se você envia para o seu filho mensagens com muitas adaptações de palavras, ele irá imitá-lo. Estas adaptações podem afetar sua comunicação escrita fora da linha da Internet, que é importante para o desenvolvimento do idioma e da gramática.”

Abaixo, a reportagem do jornal The Washington Post, dos Estados Unidos, sobre esse facto da língua informal nos meios digitais e a influência negativa que pode exercer quanto ao desempenho escolar e às necessidades de uso da escrita formal.

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–– Pré-adolescentes das mensagens de SMS têm notas mais baixas
em testes de gramática, diz pesquisador ––

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Por Jeff Bliss
Do jornal The Washington Post – Washington, D.C. (EUA)
27 de julho de 2012

O ex-presidente dos EUA Theodore Roosevelt também tentou fazer
uma reforma ortográfica.

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Em seu segundo mandato, o presidente Theodore Roosevelt [que governou os Estados Unidos entre 1901 e 1909] tentou uma reforma ortográfica do inglês norte-americano, para tornar mais simples e mais fácil de escrever as palavras. Mas aquilo que Roosevelt não conseguiu, a prática da “mensagem-torpedo” pode ter sucesso em fazer. E nem toda a gente pensa que é uma coisa boa.

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Drew Cingel, um estudante de doutorado da Northwestern University [de Chicago], diz que o grupo de adolescentes conhecido como “tweens” (pré-adolescentes) está formando para si competências linguísticas pobres e ele culpa as mensagens de SMS. Quando as pessoas enviam textos, elas tendem a encurtar as palavras e a usar abreviaturas e iniciais.

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Esses usos rapidamente alastram-se para o uso diário. Cingel diz que mais pré-adolescentes estão obtendo mau desempenho em testes de gramática.

–– Gr8! ––
“Eles podem usar um termo homófono, como ‘gr8‘ para ‘great‘ [ótimo, grande], ou iniciais, como em LOL para ‘laugh out loud‘ [riso em voz alta]”, disse Cingel. “Um exemplo de uma omissão que os pré-adolescentes usam ao mandar mensagens de texto é quando soletram a palavra ‘would‘: ‘w-u-d’.”

Cingel disse que o uso desses atalhos das mensagens-torpedo, especialmente se eles fazem uma porção de mensagens de texto, podem prejudicar a capacidade de um pré-adolescente alternar entre o jargão eletrônico e as regras normais de gramática. As consequências podem ser graves, tais como não conseguir um emprego porque se escreveu “i wud b a gr8 worker : ) ” [“eu seria um excelente trabalhador”] em um pedido de emprego.

Para comprovar sua posição, Cingel deu a estudantes da middle school –(*)–, em um distrito escolar do centro do Estado da Pensilvânia, um teste de avaliação de gramática. Os pesquisadores avaliaram o teste, que foi baseado em uma revisão gramatical da nona série, para garantir que tinham sido ensinados os conceitos a todos os estudantes envolvidos no estudo.

Os pesquisadores, então, juntaram informações sobre os costumes das mensagens de SMS de cada aluno.

–– Declínio nas notas de gramática ––

Segundo a pesquisa, o uso do “internetês” prejudica os mais jovens nos testes
escolares de gramática.

“No geral, há evidência de um declínio nas notas de gramática com base no número de adaptações nas mensagens-torpedo enviadas, verificando-as por idade e por grau”, disse Cingel.

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Não só as mensagens-torpedo frequentes previram negativamente os resultados do teste, como ambos o envio e o recebimento de adaptações de palavras nas mensagens-torpedo foram associados com o quão mal eles se desempenharam no teste.

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O dano parece ser mais acentuado na ortografia do que na pontuação. A pontuação típica e os atalhos na estrutura das frases que os pré-adolescentes usam no envio de mensagens de SMS – tais como evitar letras maiúsculas e não utilizar pontos no final das frases – não pareceram afetar sua capacidade de usar corretamente as maiúsculas iniciais e a pontuação no teste.

–– À frente de seu tempo ––
A ideia de Roosevelt de mudar a grafia de palavras, como de “through” para “thru” [através de, dentro de], foi recebida com extrema hostilidade pelo Congresso, pela Suprema Corte e por jornais do país. Por pena, ele parece que esteve um século à frente de seu tempo.

Os jovens estão agora a mudar a linguagem para acomodar em pequenos ecrãs (ou telas) e em teclados diminutos. Cingel disse que ele começou o estudo após receber mensagens de textos de suas jovens sobrinhas.

“Recebi mensagens de SMS a partir de minhas duas sobrinhas mais jovens que, para mim, eram incompreensíveis”, disse Cingel. “Eu tive de chamá-las e perguntar-lhes: ‘O que estão tentando me dizer?'” :::

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–– Nota: ––
–(*)–  A middle school, no sistema de educação dos Estados Unidos, equivale ao segundo ciclo do ensino fundamental, no Brasil, ou ao terceiro ciclo do ensino básico, em Portugal. Abrange estudantes entre 11 e 14 anos.

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BLISS, Jeff. Texting tweens score lower on grammar tests, researcher says.
Extraído do jornal The Washington Post.
Washington D.C., Estados Unidos da América.
Publicado em: 27 jul. 2012.

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Até onde o uso do “internetês” pode prejudicar o domínio da escrita formal da Língua Portuguesa?
 

–– O “internetês” contra a escrita formal do Português? ––
Nos países de língua portuguesa, muitos jovens e pré-adolescentes aderiram a esse código de retrabalho linguístico da escrita, chamado de “internetês” – odiado e malvisto por muitas pessoas.

Essa variação de atalhos da escrita explora uma forma diferente de escrita da Língua Portuguesa, com uso intenso de termos de formação variada:
• Abreviações, em que se omitem as vogais: –– como “vc”, para “você”; “tbm”, para “também”; “blz”, para “beleza”.
• Siglagens: –– como “fds” para “fim de semana”; e o importado “LOL”.
• E homófonos: –– como “naum” para “não”; “i9” para “inove”; “kbça” para “cabeça” (no Brasil, a letra “k” chama-se “ca”).

Este último caso dos homófonos faz lembrar o uso informal escrito, no Brasil, até duas décadas atrás, de “k7” para escrever “cassete”, em referência às fitas com gravações de áudio ou de vídeo para reprodução em aparelhos domésticos.

Tal como nos Estados Unidos e em outros países do mundo, é a variação de linguagem escrita marcadamente informal usada nos meios digitais, nas mensagens-torpedo dos telemóveis e dos mensageiros eletrónicos de texto. Alastra-se para os fóruns de bate-papo e de discussão na Internet, para os correios eletrónicos, para os microblogues e outros recursos de envio de textos escritos na mídia eletrónica.

O estudo feito nos EUA parece justificar os temores e os ressentimentos de quem critica esse jargão do “internetês”. Mas o que ocorreu lá nos testes de língua inglesa e redação feitos por esses jovens pode se reproduzir aqui também na Lusofonia, nos testes escolares de Língua Portuguesa? Até que ponto o uso intenso do “internetês” é prejudicial à expressão escrita da Língua Portuguesa pelos mais jovens?

Será de grande importância a realização nos países lusófonos de um estudo similar ao que foi feito na Pensilvânia. E, a partir daí, usá-lo como parâmetro para estimular os estudantes do início da adolescência a usarem a escrita formal da Língua “filha ilustre do Latim”.

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(Postado por Ronaldo Santos Soares.)

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