Articles

A polémica terminologia portuguesa da Língua

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional on 19 de Julho de 2012 by ronsoar Tagged: , ,

De Ronaldo Santos Soares
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo
16 de julho de 2012

O Programa de Português do Ensino Básico e a nova terminologia da Língua suscitaram discordâncias entre a escritora Teolinda Gersão e a professora Maria Helena Mira Mateus.

.

A reformulação recente feita pelo Ministério da Educação da República Portuguesa quanto ao ensino da Língua Portuguesa nas escolas – com a adoção de uma nova terminologia para o ensino, muito prolixa e usada apenas em Portugal – tem gerado grandes controvérsias e discussões entre professores e especialistas da Língua.

Em um texto veiculado no jornal Público, de 2 de julho de 2012, com título “Redação – Declaração de Amor à Língua Portuguesa“, a escritora Teolinda Gersão apresentou “a pedido dos netos” a crítica ao Programa de Português do Ensino Básico e ao Dicionário Terminológico – do Ministério da Educação de Portugal –, sob a forma de uma redação dirigida a uma professora de português.

A complexidade da nova terminologia da Língua é um desafio tanto para os professores quanto para os alunos.

“Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta”, diz trechos do texto, escrito na ortografia anterior à do Acordo de 1990. “A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice.”

A “Redação” de Teolinda Gersão, com tom de crítica à forma de ensino da Língua nas escolas portuguesas, suscitou grande debate sobre as aulas de português do Ensino Básico nas escolas em Portugal e causou grande desagrado à professora drª. Maria Helena Mira Mateus, catedrática da Universidade de Lisboa, que participou da elaboração da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS).

“É absurdo assacar ao ensino da língua materna erros, dislates e desinteresse que sente um estudante que julga que aprender Português é só ter lido alguns livros (quando o faz) e não dar erros de ortografia”, declarou em resposta Maria Helena Mira Mateus, também no Público, de 7 de julho. “Uma generalização da inutilidade e dos erros do ensino do Português, apresentada a sério ou a brincar, apenas mostra uma completa falta de respeito pelos agentes desse ensino e por todos os que têm trabalhado nesta área.”

A resposta de Maria Helena Mira Mateus motivou uma réplica de Teolinda Gersão em forma de carta aberta, em que deixou claro que não se deve confundir didática da Língua com teoria linguística. “O que o meu texto vem dizer é que este ensino não nos serve, e que tem havido um enorme abuso de poder de alguns sobre a maioria”, disse Teolinda, na carta aberta lançada no Público em 13 de julho.

“Vivemos há décadas no enorme equívoco de que ‘os linguistas é que sabem, por isso o poder é deles'”, disse a escritora. “Mas é altura de o país – se assim quiser – dizer basta. A língua não é propriedade dos linguistas. O ensino da língua também não.”

Terminologia Linguística para o Português em Portugal
O Dicionário Terminológico adotado para o ensino da Língua nas escolas portuguesas é um desdobramento da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), elaborada na primeira metade da década de 2000.

A TLEBS foi aprovada a título de experiência pela Portaria n°. 1.488, de 24 de dezembro de 2004, do Ministério da Educação. Ela substituiu a Nomenclatura Gramatical Portuguesa (NGP), adotada desde 1967.

A nova terminologia, de uso muito complexo, foi criticada por diversos professores, ensaístas, escritores e especialistas da Língua, como João Andrade Peres, Vasco Graça Moura, Maria Alzira Seixo e Jorge Morais Barbosa.

João Andrade Peres: “A nova terminologia é
uma ruptura na unidade do ensino
do Português no mundo”.

O professor da Universidade de Lisboa, João Andrade Peres, divulgou em artigos veiculados na grande imprensa portuguesa os “erros metodológicos” cometidos pela TLEBS e por sua versão revista – o Dicionário Terminológico. Segundo o professor Andrade Peres, neste artigo do jornal Expresso de novembro de 2007, “o resultado é uma sintaxe do esqueleto da língua, alheia à significação, ou, aqui e ali, uns assomos de semântica pré-científica, ingénua quando não mesmo errónea.”

.

João Andrade Peres ainda expressou sua preocupação sobre como será o ensino internacional da Língua Portuguesa com uma nomenclatura complexa adotada unilateralmente por Portugal. “A situação a que se chegou com a TLEBS representa uma brutal ruptura na unidade do ensino da Língua Portuguesa a nível mundial, de consequências imprevisíveis.” E lançou uma sugestão. “Que país onde reine o bom senso optaria pela TLEBS em detrimento de uma nomenclatura simples, acessível e possivelmente suficiente, como é a NGB [Nomenclatura Gramatical Brasileira, de 1959] (e, com as mesmas conhecidas limitações, era a NGP)?”

“E o que aconteceria, então, se franceses, ingleses, alemães ou ucranianos tivessem de ser ensinados com o esoterismo da problemática TLEBS […]?” Assim perguntou João Andrade Peres neste texto de janeiro de 2007. “A resposta só pode ser uma: aconteceria a incompreensão, a ruptura, o caos, sempre em prejuízo de Portugal.”

As mudanças no programa de ensino ocorreram durante a gestão de Maria de Lurdes Rodrigues no Ministério da Educação.

Um grupo de 51 professores universitários subscreveu uma carta dirigida à então ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, em 3 de janeiro de 2008, solicitando a suspensão definitiva e a reformulação da TLEBS.

Através de nova portaria, que havia sido lançada em abril de 2007, a TLEBS foi submetida por revisão científica e adaptação pedagógica, até que, em 2008, foi transformada no Dicionário Terminológico, disponível em linha no sítio do Ministério da Educação.

Em março de 2009, o Ministério da Educação divulgou o Programa de Português do Ensino Básico, traçando as diretrizes para o ensino da Língua Portuguesa nas escolas do país, para cada ciclo do Ensino Básico. O programa foi elaborado por uma equipe de professores de português e de linguistas coordenada pelo professor catedrático dr. Carlos Reis, da Universidade de Coimbra.

Uma terminologia complexa e de uso isolado
Embora tenha boa intenção de aproximar o ensino da Língua das teorias de pesquisas linguísticas, a nova terminologia acabou tornando-se mais complexa que a Nomenclatura Gramatical anterior, que cumpria bem a missão do bom ensino da escrita e da leitura da Língua. Tanto que o novo modelo terminológico ainda gera grandes dúvidas no corpo docente português quanto à sua aplicação em salas de aula.

Há ainda o facto de a nova terminologia ser de uso restrito a Portugal e de não ter sido elaborada ou negociada em conjunto com especialistas da Língua dos demais países lusófonos. Sequer cogitou-se em adotar uma nomenclatura gramatical unificada da Língua Portuguesa, como defendeu o professor Andrade Peres.

A terminologia oficial portuguesa para o ensino da Língua permanece ainda hoje como fonte de controvérsias na comunidade docente. E se até os grandes especialistas da Língua entram em atrito por causa de sua complexidade, o que dizer então dos milhares de professores e alunos do Ensino Básico e Secundário que terão de lutar para compreender um modelo de ensino linguístico que isola Portugal das demais partes do mundo que se expressam na língua “filha ilustre do Latim”?

.

Texto de Ronaldo Santos Soares – Defesa da Língua Portuguesa
Publicado em: 16 jul. 2012.

3 Respostas to “A polémica terminologia portuguesa da Língua”

  1. A Biblioteca do (des)Acordo Ortográfico – a favor ou contra, o saber é o mais importante
    http://www.jrdias.com/acordo-ortografico-biblioteca.htm

  2. Agradeço ao Eduardo Lousada a divulgação da Biblioteca do Desacordo Ortográfico. Porque é preciso pôr dim ao Monstro.

  3. Estudei com curiosidade e interesse a gramática da Prof.Drª M.Helena M.Mateus, na década de 80, na Fac.de Letras da UCL, mas já nessa altura previ o desastre que está a acontecer nas escolas básicas e secundárias. A TLEBS só veio agravar a aversão que as novas gerações têm ao estudo da língua portuguesa (e ao estudo em geral). E os bons alunos, os que levam o estudo a sério, não se preocupam com questões linguísticas. A sua atenção está toda virada para as ciências e para as profissões que dão dinheiro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: