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A palavra “Lusofonia”: um outro império? – Filipe Zau

In Defesa da Língua Portuguesa, Língua Portuguesa Internacional, O Mundo de Língua Portuguesa on 18 de Julho de 2012 by ronsoar Tagged: , , ,

Do Jornal de Angola – Luanda, Angola
13 de julho de 2012.

Filipe Zau escreveu no Jornal de Angola artigo sobre o que quer dizer a palavra “Lusofonia”.

O escritor, músico e historiador dr. Filipe Zau, especialista em Ciências da Educação e em Relações Interculturais e profundo conhecedor da música e da cultura dos povos de Angola, escreveu recente artigo no Jornal de Angola sobre a palavra “Lusofonia” – que está no nome de nosso blogue.

No texto, o autor questiona o uso e o significado do termo “Lusofonia” e as implicações culturais e históricas presentes no conceito de Lusofonia. Embora haja um viés crítico quanto ao termo, o autor, com base em declarações do professor, escritor e filósofo português Eduardo Lourenço, concorda que o conceito atual de Lusofonia só pode ser adequadamente aceito no contexto da mundialização, sem que seja centralizado apenas em Portugal, para não ser sempre visto como um sonho ou uma aspiração.

Abaixo, mostramos o artigo de Filipe Zau publicado na edição de 13 de julho de 2012 do Jornal de Angola, de Luanda.

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–– A palavra “Lusofonia” e os conceitos que utilizamos no nosso quotidiano ––

::: “É uma ilusão pensar que o fio da Língua, como o de Ariana, basta para desenhar os contornos ou os meandros desse labirinto de nova espécie que foi – e continua sendo como nosso espaço simbólico – o finado império e as suas intrincadas malhas”.
–– [Eduardo Lourenço, 1999] :::

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Para o autor, “Lusofonia” não é só a CPLP nem só “falar a Língua Portuguesa”.

No dia 28 de agosto do ano passado, neste mesmo Jornal [de Angola], através de um artigo de minha autoria, intitulado “O conceito de Lusofonia e a concertação diplomática“, referi-me à necessidade de epistemologicamente se esclarecer, o que, nos dias de hoje, se entende por “Lusofonia”. A razão para tal reside no facto de a maioria das pessoas, mais a reboque de influências do que de evidências, usarem-no como sinónimo de Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ou, simplesmente, de falantes da Língua Portuguesa, indepen-dentemente dos diferentes contextos (geográfico, político e sociocultural) dos falantes deste mesmo idioma.

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–– De um conceito inexistente à aspiração de um projeto ––
De salientar, que o termo “Lusofonia” parece ter surgido no período pós-colonial, já que o Dicionário Prático Ilustrado, editado, em 1977, pela Lello & Irmão Editores, com 2.026 páginas e mais de 100.000 vocábulos, à época, autointitulado de Novo Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, é totalmente omisso em relação à palavra “Lusofonia”, mas refere-se à palavra “luso” como sendo: o “nome do suposto fundador da raça lusitânica”; sinónimo de “Português”, de “Lusíada” e de “Lusitano”.

Mapa da Língua Portuguesa no mundo. –– Em verde mais escuro, países de língua oficial portuguesa; em verde claro, países e regiões de português língua secundária e comunidades lusófonas; em amarelo, crioulos de base portuguesa. (Fonte: Wikipédia).

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A Wikipédia (“a enciclopédia livre da Internet”) define, nos dias de hoje, a “Lusofonia” como sendo “o conjunto de identidades culturais existentes em países, regiões, estados ou cidades falantes da Língua Portuguesa, como Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e por diversas pessoas e comunidades em todo o mundo” [sic]. Porém, o facto de a identidade social, segundo Henri Tajfel, ser definida, do ponto de vista psicossocial, como a “parte do autoconceito dos indivíduos, que deriva do seu conhecimento, da sua pertença a um grupo social (ou grupos), conjuntamente com o valor e significado emocional dessa pertença”; ou, segundo o filósofo ganês Kwame Anthony Appiah, como “uma coalescência de estilos de conduta, hábitos de pensamento e padrões de avaliação mutuamente correspondentes; em suma, um tipo coerente de psicologia social humana”; leva-nos a pôr em causa a definição de “Lusofonia” apresentada pela Wikipédia. Falar português, em diferentes “regiões, estados ou cidades”, não significa que todos os locutores da Língua Portuguesa passem a ter, obrigatoriamente, uma nova identidade, ou, no mínimo, uma identidade de sentido mais amplo, que se sobreponha a outras, de índole cultural ou política, que, naturalmente, lhes é intrínseca.

Maria Manuel Baptista, da Universidade do Aveiro, também questionou o termo “Lusofonia”.

A Língua Portuguesa é somente uma “ferramenta” comunicacional de grupos de falantes que, em maior ou menor grau, dominam o mesmo código linguístico, podendo os mesmos ter, ou não, a mesma identidade cultural ou política. Os usuários de um qualquer idioma são, todos eles, em igual circunstância, proprietários desse idioma e não estão sujeitos a restrições ou tributação por parte de quem quer que seja, pelo simples facto de o utilizar. As línguas são como o ar que respiramos. Não têm proprietário. O preço a pagar pelo seu uso está na forma como melhor ou pior cuidarmos delas, no que respeita à coerente sistematização e utilização correta das suas normas, que, evidentemente, contribuem e muito, para o seu melhor estudo e divulgação. Não para o estabe-lecimento de um qualquer sentido aleatório de pertença ou de dependência cultural ou política de Estados ou pessoas, para com outros países ou outras pessoas.

Curiosamente, já se admite, hoje, que haja vários conceitos de “Lusofonia” e outros aspectos em causa além do falar português, que, fora do quadro dos “descobrimentos” portugueses, ninguém diz quais são. Daí que, a palavra “Lusofonia”, por vezes, nos apareça como uma aspiração, um projeto de futuro, sem que, para além da Língua, se fundamente quais as traves-mestras do passado e do presente que, na atual conjuntura política, justifique a edificação desse mesmo projeto, em condições de igualdade para todos os Estados e Povos, que o venham a representar no futuro.

–– “Lusofonia”, segundo Eduardo Lourenço ––

Para o professor Eduardo Lourenço, a comunidade lusófona “é um sonho lusíada”.
 

Maria Manuel Baptista, com uma comunicação apresentada no III Seminário Internacional “Lusografias”, promovido pelo Centro de Investigação e Desenvolvimento em Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Évora, que decorreu de 8 a 11 de novembro de 2000, logo no início da sua intervenção, referiu o seguinte: “A presente comunicação parte da ideia de que o conceito de Lusofonia é um bom conceito para abandonar, pois é um termo que imagina designar e conter em si um espaço linguístico-cultural que teria desde logo como centro os ‘lusos’ ou os ‘lusíadas’, apesar de o discurso oficial, de intelectuais e políticos dos mais diversos quadrantes e formações, ser incapaz de assumir claramente, e sem hipocrisia, a não inocência de um tal conceito”.

Maria Manuel Baptista sustenta esta afirmação com uma citação do professor e filósofo português Eduardo Lourenço, que, em 1999, no seu livro – “Cultura e Lusofonia ou os Três Anéis” – A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, afirmou perentoriamente: “Não sejamos hipócritas, nem sobretudo voluntariamente cegos: o sonho de uma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, bem ou mal sonhado, é por natureza – que é sobretudo história e mitologia – um sonho de raiz, de estrutura, de intenção e amplitude lusíada”.

E acrescenta que a questão da “Lusofonia” tal com a Francofonia, só pode ser adequadamente esclarecida num contexto mais vasto “que é o da nossa atual cultura mundializada, a braços com a, porventura, mais profunda crise que o pensamento ocidental já viveu, situação cultural e espiritual que tem sido comumente designada por pós-modernismo, pós-humanismo, pós-cristianismo ou pós-colonialismo”.

Dentre os intelectuais portugueses que têm procurado um sentido, simultaneamente retrospectivo e prospectivo, para a Lusofonia, destaca-se Eduardo Lourenço, “um europeísta convicto, ora crítico e desiludido, ora utópico e entusiasta” cujas reservas face à “Lusofonia” são claras e reiteradamente assumidas nos diversos textos que tem publicado sobre esta matéria.

É tempo de nós, por cá, passarmos a refletir mais maduramente sobre conceitos que utilizamos no nosso quotidiano sem fazermos qualquer juízo de valor sobre os mesmos. O uso do termo “Lusofonia” é, apenas, um dos exemplos.

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ZAU, Filipe. A palavra “Lusofonia” e os conceitos que utilizamos no nosso quotidiano.
Extraído do Jornal de Angola – Luanda, Angola.
Publicado em: 13 jul. 2012.

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