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Acordo Ortográfico: ainda há resistências

In Defesa da Língua Portuguesa, O Mundo de Língua Portuguesa on 23 de Junho de 2012 by ronsoar Tagged: , ,

Extraído da Agência Lusa e da TVI (Portugal), e da Agência Senado (Brasil)

Assinado em dezembro de 1990, o Acordo Ortográfico, que visa unificar as regras de escrita da língua portuguesa, já foi ratificado pela maior parte do mundo lusófono. Porém, aqui e ali, há ainda as vozes discordantes, as vozes da divisão. Dos dois lados do Atlântico, ouvem-se reclamações de nomes das letras que tentam resistir ao novo documento que complementa o caráter internacional de nossa Língua, a “filha ilustre do Latim”.

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Câmara Municipal da Covilhã decidiu não adotar ainda o Acordo
A Câmara Municipal da Covilhã não vai, por ora, adotar o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Em despacho emitido dia 15 de junho, o presidente da autarquia decretou que “em toda a correspondência oficial da câmara e das entidades agregadas, não seja adotado o novo Acordo Ortográfico”.

Câmara Municipal da Covilhã decidiu, por ora, não adotar o Acordo de 1990.

No mesmo documento, Carlos Pinto adianta que esta determinação será reponderada no final do período transitório para a implementação do Acordo – o que acontecerá em 2015. Até lá, na Covilhã, tudo continuará a ser escrito com a grafia atual.

Em comunicado, a autarquia lembra que “largos sectores da sociedade portuguesa têm vindo a questionar o método e a substância deste Acordo, na vertente da sua relação com a realidade ortográfica presente e com a falta de consenso nacional sobre esta matéria, constatando-se, deste modo, uma falta de unidade na expressão estética em língua portuguesa que, no caso em apreço, é portador de um correlativo desprestígio institucional”.

Como a resolução da Assembleia da República que aprovou o Acordo prevê um prazo transitório de seis anos para a implementação da nova grafia, ou seja, decorre até 2015 um período de transição durante o qual ainda se pode utilizar a grafia atual, a câmara decidiu que, até lá, tudo continua na mesma.

Manuel Alegre: “Continuo a escrever em português antigo”

Manuel Alegre: “O Acordo abrasileirou a Língua Portuguesa”.

O poeta e escritor Manuel Alegre garantiu no dia 17 de junho, em Esposende, no Norte português, que vai continuar a escrever em “português antigo” e considerou que o novo Acordo Ortográfico significa uma “capitulação e uma descaracterização” da língua portuguesa.

“Eu continuo a escrever daquela maneira, que é aquela que sei e não mudo. Não vou escrever coisas absurdas, como ‘seleção’ sem a dupla consoante. Não sou capaz”, referiu.

Segundo Alegre, o Acordo Ortográfico “foi muito simplificado” e “muito centrado não propriamente na filologia, na linguística, mas na ortografia”.

“Em nome da globalização, [o Acordo] abrasileirou a língua portuguesa. É uma capitulação e uma descaracterização da língua portuguesa. Hoje leio jornais e aquilo parece-me uma caricatura”, acrescentou.

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Lembrou que, enquanto deputado na Assembleia da República, votou contra o Acordo Ortográfico e sublinhou que quem faz a língua “são os povos, os poetas, as pessoas” e que “a Língua Portuguesa é tanto mais rica quanto mais diversa”.

A riqueza da Língua Portuguesa, acentuou, “está no facto de ela ser una no essencial e, depois, diferente”.

“Eu continuo a escrever no português antigo, como, aliás, o Fernando Pessoa também escrevia. Fernando Pessoa dizia que a ortografia faz parte da estética da língua”, rematou.

Vasco Graça Moura: “O Acordo tem de ser revisto”

O escritor Vasco Graça Moura é quem mais se opõe ao Acordo Ortográfico em Portugal.

Recentemente em conferência na Cidade do Porto, o escritor Vasco Graça Moura disse que “o Acordo Ortográfico tem de ser revisto”, até pelo mal-estar existente em países como Angola e Moçambique, e defendeu que o processo deve ser feito com “bom senso”.

O Governo português adotou o acordo desde 1 de janeiro, mas, para Graça Moura, o documento “não é aplicável porque não existe um vocabulário ortográfico comum” a todos os países de língua oficial portuguesa.

O poeta, ficcionista, ensaísta, tradutor e atual responsável máximo pelo Centro Cultural de Belém, em Lisboa, critica ainda “as facultactividades introduzidas” pelo Acordo, porque “geram o caos”.

Afirma que o Acordo introduz, ainda, “graves lesões da pronúncia de muitas palavras e em nada se contribui para a unidade da ortografia” da língua portuguesa.

Em outra ocasião, Graça Moura disse à rede de televisão TVI que defende a revogação do Acordo de 1990.

“Este Acordo é uma manifestação perfeitamente colonialista e fez tábua rasa de quaisquer regras para os vocábulos nativos”, frisou, lembrando que “para estar em vigor, seria necessário que fosse assinado por todos os países, mas Angola e Moçambique não subscreveram”.

“É uma forma de transferir a perda do Império para o plano da língua, o que não faz sentido nenhum”, disse, acrescentando: “Estamos a fabricar um atentado à Língua Portuguesa. O Acordo devia ser suspenso.”

Em todos os seus documentos e eventos, o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, não adota a nova grafia do Acordo.

Resistências no Brasil: há senadores que falam em revisão

No Brasil, os professores Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel expuseram ao Congresso Nacional suas críticas ao Acordo Ortográfico assinado em 1990.

No outro lado do oceano, os senadores Paulo Bauer, Ana Amélia Lemos, Cristovam Buarque e Cyro Miranda estão convencidos de que é responsabilidade do Senado Federal do Brasil rever a implantação do Acordo Ortográfico.

Em audiência pública requerida por estes senadores e realizada em abril na alta casa do Congresso Nacional brasileiro, os professores Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel avaliaram que está confusa a adoção da reforma ortográfica no Brasil e que não está sendo cumprida a instituição de uma ortografia oficial unificada.

O professor Pasquale disse que vários livros não seguem o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), publicado pela Academia Brasileira de Letras em 2009 e que não acompanha o estabelecido pelo Acordo de 1990.

“A adoção dessa reforma ortográfica foi um desastre. Dinheiro público foi jogado no ralo, porque os livros didáticos contêm muitas imprecisões e confusões”, disse. Ele contou que recentemente esteve em Portugal e que “o povo de lá rejeita a tal reforma”.

O professor Ernani Pimentel, idealizador do Movimento Acordar Melhor, lembrou que o VOLP brasileiro desrespeita o Acordo. E para ele, as alterações deveriam ser submetidas ao Congresso Nacional para que produzissem efeito – o Acordo entrou em vigor no Brasil através de decreto do então presidente Luís Inácio Lula da Silva, assinado em 2008. “O que se está imputando aos brasileiros é uma ilegalidade. É uma imposição ditatorialesca”, disse Pimentel.

Pimentel disse que o secretário de Estado da Cultura de Portugal, Francisco José Viegas, defende uma modificação do Acordo até 2015. E critica o facto de terem sido ouvidas apenas a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa. “Não foram consultadas instituições como a Academia Brasileira de Filologia, que existe desde 1943, e cujos membros são todos filólogos”, disse.

Ele sugeriu a ampliação do debate para todos os que têm a escrita como instrumento de trabalho, como professores de português, jornalistas, linguistas e pedagogos.

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— Extraído da Agência Lusa e da TVI (Portugal), e da Agência Senado (Brasil) —

3 Respostas to “Acordo Ortográfico: ainda há resistências”

  1. Isto tudo não passa de uma grande xenofobia ainda existente nos portugueses para com os brasileiros; e um autoritarismos exacerbado dos brasucas para imporem-se aos lusos.

    Coisa desnecessária….

    Mas o acordo pelo menos diminuiu as diferenças entre um e outro na escrita, isso é fa(c)to. sem o AO escreve-se actual em Portugal, sendo que o c não é pronunciado, logo não precisava de lá estar. Contudo, há certas coisas também sem necessidade nesse acordo, como é o caso da eliminação do acento diferencial de para preposição e pára verbo. Isso ficou estranho, e pode causar ambiguidade em alguns casos…

    Mas enfim, essa briga é sem motivo no ramo linguístico, já que o novo acordo, tirando algumas esquisitices, se torna bem mais fiel à língua falada. esses argumentos que usam para dizer que o AO não unifica o idioma é furado. Sempre houve divergências em palavras do mesma variante do português aqui no Brasil. É o caso da palavra expectativa; vejo gente dizer com o c que se escreve e gente sem pronunciar o mesmo, dizendo /expetativa/… O mesmo acontece em Portugal pois já tive a oportunidade de ver.

    Então isso tudo é besteira! o Acordo tem um peso mais positivo que negativo!
    Quem discorda tem mais divergências políticas que linguísticas.

  2. O acordo já foi feito e aprovado… foi necessário… agora tem um pessoal que cai de paraquedas falando em revisões?!…. Isso é apenas auto promoção as custas de coisa seria.

  3. É uma pena que a lusofonia seja tão dividida. Só contamos com os outros país, quando queremos mostrar que há mais de duzentos milhões de lusófonos. Essa polêmica, não nos leva a nada.
    Sigamos os exemplos dos espanhóis, ingleses e alemães.
    Como sempre acordamos muito tarde. Agora é que o Brasil, se deu conta da importância da sua língua, isto é, português do Brasil., porque não podemos chamar de “brasileiro” como os franceses chamam, para diferenciar o português europeu e o do Brasil. O acordo foi assinado em 1990 e até hoje, há gente, pondo em causa esse acordo.A contribuição dos sete países foi benéfica à língua portuguesa, pois, enriqueceu-a com vocábulos de outros países. No Brasil, o português ficou enriquecido com palavras de origem Tupi,Guarani e de outras línguas de origem africana. O acordo foi feito para que as gerações futuras escrevam da mesma forma, respeitando as diferenças fonéticas, como por exemplo: Antônio (Brasil) e António (Portugal). Nem o Brasil nem Portugal vão pronunciar de maneira igual.Fazendo a adaptação do Livro “Gramática Activa1 e 2- versão portuguesa, vi que havia muita diferença de vocabulário, de expressões idiomáticas e de concordâncias verbais entre as duas vertentes, mas isso, não quer dizer, que falamos e escrevemos uma outra língua. Através da televisão houve uma compreensão melhor das duas variantes.
    Vamos unir-nos e não desunir-nos, em prol da língua portuguesa.

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